Partos (versão nova)

•Setembro 30, 2008 • 2 Comentários

E sempre há de ser uma agonia, essa coisa de escrever. Seja pela inquietação de uma inspiração súbita, seja pelas demoras por encontrar a palavra certa para ligar ao papel o que se tem na cabeça, seja pela má vontade em ter que ler e encontrar pequenas frustrações. Se bem que da súbita presença de um acontecimento até o surgimento de um bando de palavras (mal?) organizadas numa folha de papel ou numa tela de computador, o hiato pode ser imenso.

Entre as pequenas escolhas, os olhares, a abertura da percepção auricular, o tato, o olfato, a memória, a intuição ou seja lá qual manifestação psicossomática o faça sacar a tampa da caneta ou abrir o Word, há também as pequenas lacunas a ser preenchidas a cada instante. Pequenos hiatos criativos a ser transpassados feito obstáculos de uma prova de corrida de 110 metros com barreiras.

E há o exercício de se imaginar a folha de papel ou a tela de computador como um útero branco com o qual se gerará a fotografia das sensações, os “nove meses” esticados ao tempo pelo qual a matéria se unirá a outra matéria e se desenvolvento feito feto da idéia original, a transa das inspirações que inseminará a ansiedade. Que culminará na dor psíquica de enfim terminar a transcrição do inteligível ao mundo físico, seja em forma de papel rabiscado ou impresso, passando pela vulva gráfica e seus jatos de tinta.

No fim das contas, escrever é preencher lacunas.

Mogwai (Auto-Rock)