Touro Desgovernado

Tira-te de mim, vá! Tira-te de mim! Arranca fora minha pele sangrando pelas paredes pintadas de afeto e desejo bruto, escorrendo pela boca, pela vida. Me ame gordo, me ame torto, me ame morto. Me ame, me goze, me chupe, me beba, espumando pela boca. Toma tua mão e entra dentro de mim, pela boca. Coça meu pulmão por dentro, me faz carícias nas entranhas todas, revira meu intestino, revira minha vida como quarto revirado. Me despedaça e reconstrói, e me destrói de novo pra vida continuar no quebra-cabeças de peças que não se encaixam e me faz vir a ser eu mesmo como nunca fui nem serei em toda semi-vida, página virada de uma história sem começo. Me cospe, me tosse, me vomita, me esperneia me faz sentir sem pernas sem braços sem pensamentos, me infiltra e me mistura numa valsa dentro da calça e dentro de um desejo não cumprido. Me esmaga, me amassa, faz sangrar meu coração estirpado de tantas vontades. Me fuça, futuca, me fura com a lança das tuas palavras, me faz acreditar que um dia você não disse que não queria nada, me faz acreditar! Anda! Tira-te de mim, vá! Tira-te de mim! Me faz caber num copo de cachaça e me soca com pilão de verdade intragável, me faz sentir sair os sucos todos, me deixa sem essência. E faz mais forte, mais forte, mais forte! Tira-te de mim, e me tira de dentro de uma cabeça desgovernada, me tira de uma saca aprodrecida, me faz quebrar a janela e me faz fugir da vida. Me deixa fugir da palavra e me faz envolver naquilo que nunca senti, que nunca ouvi, que nunca bebi, que nunca comi, que nunca, nunca, nunca. Faz voltar a mim e ser mim, me faz perceber que erro e que ferro toda vez que alguém diz não. Tira-te de mim, vá! Tira-te de mim. Me lambe, me escorre, me fura e me ferra, me serra pelo meio, me estraçalha. Me impala, me escangalha de tudo que uma tarde pensei em ser e ter e volver e tecer e comer e fazer e gemer e morrer e crescer e cozer e nascer e. Susto, não! digo, susto, que susto? não tem susto, ninguém aqui falou em susto. Desfaz os meus dedos, desfaz os selos de cartas todas que não te escrevi, me derrama numa folha de papel cheia de sangue, cheia de porra, cheia todas palavras malditas censuradas numa vida censurada e numa casa censurada e numa besta censurada e numa cela censurada e numa janela pela qual o mundo se via distante numa paisagem de utopia e que fazia bem. Ai, ai, ai que me faz sangrar o chifre pelas entranhas, me adentra e sai e adentra e sai e adentra e sai cavocando saindo sangue saindo entranha e saindo e entrando tudo que eu não queria ter. Tira-te de mim, vá! Tira-te de mim! Me esquece e me me dissipa em fumaça toda dos escapamentos que arde os olhos e soltam lágrimas que afogo em mim, tira-te de mim, que me sufoco em mim, tira-te de mim, que me esfolo vivo, tira-te de mim, que me faz tirar meu sangue com concha de sopa, tira-te de mim, que me faz estourar meus miolos, tira-te de mim, que faz a língua ser cortada, tira-te de mim, que faz os olhos escorrerem dentro de piscinas de sentimentos, e tira-te de mim. Me faz parar, pára esse trem, pára esse trem, pára! Me tiraste dos trilhos e tira-te de mim, me faz voltar, tira-te de mim. Me faz. Tira-te de mim. Me faz respirar. Me faz. Tira-te de mim. Quero mais voltar. Tira-te. Me transparecer dentro de opacidades todas. Retira-te. Quero água. Tira. Não mais. Retira. Não mais. Nunca mais. Nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca mais esse vazio esse arrepio esse tiro perdido no oco do côco de uma tragédia quase comédia de um coração que só sabe sangrar, que sabe amar e não sabe bater. Me xinga, me maldiz. Goza da tua atitude de puta e me diz que não sou mais nada, tira-te de mim e me deixa, me seja mais não mais com era, me faz saber que nada mais que faça seja como antes. Me tira de mim, tira o casulo, casco duro, cancro mole, gonorréia. Me faz ser sem cessar sabedoria certa. De tudo e mais um pouco que nunca sei e nem sabia, sai de mim com a mentira deslavada que mulher não pretende nada. Me ataca a alergia, bronquite, burcite, rinite, sinusite. Me faz escorrer o catarro de dentro e vômito no chão da sala. Diante dos quadros centenários que não contam a história. Apaga o teu nome da minha história. Apaga de mim, vá. Tira-te de mim! Tira-te de mim, tira-te de mim, tira-te de mim, tira-te de mim, tira-te de mim. Não acredito nas damas de companhia que dizem ser sozinhas a vida toda. São as primeiras que abrem as pernas e sentem o prazer das fornicações todas. Gozem feito putas e tira-te de mim. Me desata, desamarra da parede e do teto e me tira de transe, me tira do longo transe de pensar nos amores que não existe amor. Me desfaz o pensar nas coisas alegres que não existe alegria. Me faz desorientar entre labirinto de pensamentos perdidos entre si, numa confusão de cruzamento de carros, e pessoas e motos e armas e sinais e buzinas e concreto e arame que machuca, tudo me machuca, não diga palavras bonitas, tudo me machuca. Não faz a coisa forte diferente que diferente não existe. No fim, e só no fim do fim e não quase no fim nem no começo do fim, tudo se renova. Tira-te de mim que tudo se renova.

(30/11/06)

Toranja – Ciclo


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